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Fragrâncias

Perfumes, Práticas e Discursos

Fragrâncias

Perfumes, Práticas e Discursos

EM BUSCA DOS AROMAS E SABORES (5)

  

EM BEGET

 

 

Se me perguntarem se prefiro as montanhas, ao campo ou ao mar fico indecisa. O meu coração balança e acabo por concluir que esta trilogia faz parte da minha vida.

Preciso dela.

 

O barulho cadenciado do mar, que traz até mim o OM ou Ôm primordial, dá me uma tranqulidade profunda. Adoro adormecer ouvindo-o...

O azul que se confunde com o céu faz-me ter a noção do infinito.

 

Mas as montanhas e o campo são imagens que guardo desde que tomei consciência que "existia".

Plenos de verdes na Primavera, castanhos-dourados no Outono, ou com uns farrapos  de neve , no Inverno, desafiam-me à descoberta, ao "passeio pelo passeio"... E, como é bom colher uma flor, apanhar umas castanhas ou medronhos, arrancar aos silvados umas amoras. Deliciosas. Não admira que, os frutos vermelhos dos bosques, já façam parte da pirâmide olfactiva de algumas fragrâncias.

 

Neste redescoberta da Catalunha, com os seus monumentos, museus, estações arqueológicas, sabores e aromas, passear pelas montanhas impunha-se. Não esperava, no entanto, que alguns caminhos, ainda não percorridos, fossem dão belos, direi mesmo, mágicos. Não há que ter medo das palavras.

 

Entre as montanhas matriarcais, onde a "Senhora dos Povos do Mundo" impera... e o mar, estende-se a Alta Garrotxa, com a sua beleza selvagem e a Ampurdá com a sua amplitude de perder de vista. O Pirinéu de Girona está ali, abrindo-me os braços... Majestoso. Semi escondido, hoje, pelo nevoeiro.

 

 

Ripollés e Oix com a Igreja de Saint Llourenç, o Castillo de Rocabruna foram-se sucedendo na estrada de montanha que me conduzia ao destino - Beget, um pequeno pueblo com uma população residente de 12 pessoas.

Nos fins de semana e férias, as janelas abrem-se anunciando a chegada para uns momentos de lazer e de bem estar. "Mesmo assim não existem mais de 27 pessoas" dir-me-iam.

 

Não foi complicado chegar a Beget. Exigiu um pouco de cuidado na condução devido às estradas percorridas - de curvas constantes! - e ao piso escorregadio.

 

O tempo pregou-me uma partida. Se, em Besalú, o Verão de São Martinho continuava exuberante, o Pirineu de Girona estava envolvido em nevoeiro que se foi desfazendo à medida que a chuva caía.

Uma beleza diferente. Enigmática. Com um certo romantismo.

 

Bem perto da hora de almoço estava a percorrer as suas ruelas medievais, a sentir o silênciio  salpicado pelo aroma da vegetação e das flores que emolduram as janelas, pelo murmurear do rio que atravessa o "pueblo" e "que, no Verão, proporciona uns banhos refrescantes...".

Por todos os lados se encontram símbolos de uma religiosidade profunda. A "Senhora dos Povos do Mundo" espreita, vigilante, em muitas janelas.

 

As casas recuperadas, seguem a traça tradicional, com um único material a cobrir as paredes - a pedra. Não vi (!!!!) uma janela ou portada em alumínio, não descobri um único azulejo decorativo.

Imposição do Departamento Cultural e do Património Catalão e, por certo, da sensibilidade de quantos escolheram Beget como "refúgio" mais ou menos ocasional.

 

A Igreja de Saint Cristófol, coração do povoado, foi edificada no séculos X. O local não foi escolhido ao acaso - sobre as ruínas de um outro espaço sagrado, como é comum.

 

Visitá-la - para isso tem de se pedir a chave ao seu "guardião" -, revelou-se um momento de recolhimento, onde nem o frio interferiu.

Ali, contemplei "Majestad de Beget", uma talha datada do século XII com caracteristicas especiais: madeira policromada e cerca de dois metros de altura. Estou de acordo com o poeta, historiador e jornalista Quilo Martínez que a classifica como uma das peças mais representativas do românico catalão. É majestosa.

 

Um almoço tardio

 

A indicação era precisa:" no Hostal El Forn vais deliciar-te com a ementa, com a vista das montanhas, do povoado e com a decoração do restaurante. Se desejares ficar por lá, há acomodaçoes agradáveis e não muito dispendiosas".

As palavras correspondiam à realidade.

Ementa vegetariana escolhida, a conversa com a proprietária "soltou-se" e fui percebendo como era o dia-a-dia de Beget, as festas anuais, as tradições, as épocas de maior afluxo de turismo.

 

Uma vida simples mas de uma riqueza profunda, posso afirmar. Um respeito profundo pela cultura catalã, perceptivel até na gastronomia.

O fim da refeição trouxe até mim o eco da Serra da Lousã e Castanheira de Pêra: requeijão com mel e nozes. Só a apresentação era diferente. Delicioso.

 

Tempo de partir. De me despedir do Pirinéu de Girona. Por agora. Adorei e vou voltar!

 

A noite cai cedo e as montanhas vão acompanhar-me quase até Bésalu. Tal como a chuva.

 

Abraço Amigo

 

A DESCOBRIR

 

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