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Fragrâncias

Perfumes, Práticas e Discursos

Fragrâncias

Perfumes, Práticas e Discursos

À DESCOBERTA DO MISTÉRIO DA LINGUAGEM VERBAL

 

 

UM TEXTO QUE LI em "O PÙBLICO"/José Marmeleira

 

 

"De A a Z", de Pedro Diniz Reis, é uma exposição de palavras, vozes e letras que resgata o mistério da linguagem verbal, na Culturgest de Lisboa

 

Palavras que se formam num pequeno ecrã, 26 volumes de um estranho dicionário, uma voz feminina que repete a letra A. No centro de "De A a Z", exposição de Pedro Diniz Reis (Lisboa, 1972) na Culturgest de Lisboa, redescobrimos a linguagem verbal como uma experiência que se oferece ao olhar e ao ouvido. Há mais de uma década que este artista (um dos casos mais discretos e secretos da arte contemporânea portuguesa) faz das palavras, das letras e dos textos as matérias elementares do seu trabalho, numa relação sempre generosa com o som e o espaço.

 

O interesse pela linguagem foi despertado pelo contacto com a arte conceptual e, em particular, com as obras de Joseph Kosuth e Lawrence Weiner, e esboçou-se pela primeira vez num vídeo que se apropriava do aviso introdutório das velhinhas VHS. Mas a consciência de que um território se revelava surgiu com "Pg Up/Pg Dn" (2004), uma instalação composta por sete ecrãs que se enchiam de texto num movimento repetitivo, quase obsessivo: "O que primeiro me interessou [na linguagem verbal] foi a relação com o som. Queria esgotar os conceitos através da repetição. Quando repetimos muitas vezes uma palavra, ela começa distorcer-se mentalmente. 'Pg Up/Pg Dn' tinha a ver com esse processo, mas ainda partia de significados. A seguir procurei trabalhar as palavras apenas como significantes", diz ao Ípsilon.

 

Em causa estava já a necessidade de colocar a linguagem como objecto de uma percepção sensorial, de mostrar as letras enquanto figuras. A solução foi partir para um dicionário, inventário impessoal, imenso, neutro, de signos linguísticos, que enformaria o projecto da peça homónima, iniciada em 2004 mas só concluída em 2010: uma reconstituição de todas as palavras do dicionário inglês com a agregação ordenada das letras, ao comando de uma voz. À época, sem as ferramentas que certos programas informáticos vieram depois trazer, Pedro Diniz Reis decidiu suspender a ideia. "Pu-la na prateleira e comecei a procurar outros caminhos até chegar aos alfabetos.

A partir daí, as coisas começaram a complexificar-se em termos visuais e sonoros. Avancei para uma maior abstracção. Já não existiam letras que formavam palavras, mas letras como matéria abstracta".

 

Produzidos em vídeo, os trabalhos com o alfabeto compunham constelações de símbolos e sons que atestavam a riqueza de línguas diferentes. Chegada a este fase, a pesquisa de Pedro Diniz Reis ramificou-se. No vídeo "GR 352", uma tradução musical de "256 Colors", de Gerhard Richter, explorou as potencialidades da cor; com "Five" (apresentada em "Um dicionário, quatro alfabetos, um sistema decimal", na Culturgest do Porto) abordou o som como elemento auto-suficiente: rodeado de frequências sonoras emitidas por cinco colunas, o espectador era confrontado com a dessincronização de uma voz feminina que debitava em japonês os números de zero a nove.

 

Alargar a escala

 

Pedro Diniz Reis, o desconstrutor do sistema da linguagem?

"Não posso dizer que essa tenha sido a minha intenção. Questiono-me muito sobre a evolução da nossa língua, mas os trabalhos não partem desse pressuposto. São acima de tudo experiências. O que procuro quando trabalho com o som é algo parecido com o alargamento de uma escala musical, uma exploração de outras latitudes em termo rítmicos e visuais".

 

A primeira obra que interpela quem entra em "De A a Z" é "Dictionary (2004-2010). Com a duração total de 51 horas, num pequeno monitor - que lhe dá uma escala não intrusiva -, apresenta-se como uma construção em movimento, absolutamente determinada pelas regras de Pedro Diniz Reis: "Nesta exposição tudo acontece sob grelhas e mecanismos muito rígidos. Não são exercícios aleatórios. Há uma métrica. Mas não quero que o espectador pense nestas regras".

 

O aparato cede então lugar ao mistério do encontro com a obra. Em "Eunice", uma voz feminina (a da actriz portuguesa Eunice Muñoz) diz todas as letras A de um livro. O som escuta-se numa sala a meia-luz, convidativa.

 

As letras lidas em voz alta pertencem a "O Livro dos AA", que pode ser adquirido na livraria da Culturgest. "Quando surgiu o convite para expor no Porto, decidimos, em vez do catálogo, fazer outro tipo de objecto, que considero uma peça da exposição. É a listagem de um dicionário português, com as 96.715 palavras, das quais retirei todas as letras, menos o A".

 

Na matriz da obra esteve uma peça produzida no âmbito de "A secreta vida das palavras", exposição realizada em 2010 no Centro de Artes de Sines, em homenagem ao poeta Al Berto. Pedro Diniz Reis reorganizou alfabeticamente todas as letras do conto "O Medo (3)" e imprimiu-as sobre as duas páginas que antecedem o inicio do texto.

 

Esta pesquisa à volta dos caracteres surge mais aprofundada em "AA-ZZ", desenvolvimento de "O Livro dos AA" em 26 volumes que podem ser consultados na Culturgest. O efeito sobre o papel é surpreendente. A relação das letras com o espaço constrói linhas, formas, contornos, desenhos.

 

 Outra ramificação foi um concerto da pianista Joana Sá, em Março. "Basicamente compus um código a partir de 13 páginas do livro para um concerto de piano preparado", revela o artista. De "A a Z" completa assim o retrato de uma família de trabalhos e pesquisas sobre a música e a arte da linguagem verbal.